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O G-7 abraça a descarbonização

A reunião do G-7 em Schloss Elmau, nos Alpes da Baviera, assinalou um grande avanço nas políticas de enfrentamento às mudanças climáticas. As sete maiores economias de alta renda (EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá) tomaram a revolucionária decisão de descarbonizar suas economias durante este século.

Pela primeira vez as principais economias ricas acordaram sobre a necessidade de acabar com sua dependência em relação aos combustíveis fósseis. A chanceler alemã, Angela Merkel, o presidente dos EUA, Barack Obama, e outros líderes do G-7 merecem vigorosa aprovação mundial.

A ruptura histórica foi registrada no comunicado final do G-7. Em primeiro lugar, os países G-7 salientaram a importância de conter o aquecimento mundial e doméstico a menos de 2° Celsius. Isso significa que a temperatura média da Terra deverá ser mantida a menos de 2° C da temperatura média que prevaleceu antes do início da Revolução Industrial. No entanto, o aquecimento mundial até hoje já está em torno de 0,9° C – quase metade do caminho até o limite superior.

O resultado da reunião do G-7 inspira outros países a participar da descarbonização profunda e traz otimismo quanto a um vigoroso acordo mundial sobre as alterações climáticas, quando todos os 193 Estados membros da ONU se reunirem em Paris, em dezembro

Além disso, os líderes do G-7 fizeram algo sem precedentes. Eles reconheceram que, a fim de manter o aquecimento mundial abaixo do limite de 2° C, as economias no mundo precisam acabar com sua dependência em relação aos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural).

Atualmente, cerca de 80% da principal energia usada no mundo vem de combustíveis fósseis, cuja combustão emite cerca de 34 bilhões de toneladas de dióxido de carbono. Esse nível de emissões, se mantido em décadas futuras, elevaria as temperaturas muito acima do limite superior de 2° C. De fato, com o aumento do consumo de energia em todo o mundo, a manutenção da dependência em relação aos combustíveis fósseis poderia elevar as temperaturas mundiais em 4° C a 6° C, resultando em consequências potencialmente catastróficas para a produção mundial de alimentos, resultando em níveis do mar mais elevados, megassecas, grandes inundações, ondas de calor devastadoras e tempestades extremas.

As conclusões científicas são mais claras do que muitos políticos gostariam. Para que a humanidade tenha uma “provável” chance (de pelo menos dois terços) de ficar abaixo do limite de 2° C, uma pequena redução nas emissões de CO2 não será suficiente. Na verdade, as emissões terão de cair a zero no fim deste século para impedir qualquer aumento da concentração de CO2 na atmosfera. Em suma, a economia mundial precisa ser “descarbonizada”.

O avanço na cúpula do G-7 está no fato de os sete governos terem reconhecido isso, declarando que o limite de 2° C requer a “descarbonização da economia mundial ao longo deste século”. O G-7 finalmente declarou inequivocamente o que os cientistas vêm exortando há anos: a humanidade não deve apenas reduzir, mas sim pôr fim às emissões de combustíveis fósseis de CO2 neste século. A descarbonização é viável, embora não seja, absolutamente, fácil. Depende de três passos fundamentais.

Em primeiro lugar, temos de nos tornar energeticamente mais eficientes, mediante projetos de construção modernos que reduzam as necessidades de aquecimento, refrigeração e ventilação intensiva. Em segundo lugar, temos de produzir eletricidade com energias de fonte eólica, solar, nuclear, hidrelétrica, geotérmica e outras fontes não geradoras de carbono, ou capturando e armazenando o CO2produzido por combustíveis fósseis (CCS, em inglês). Em terceiro lugar, temos de migrar de combustíveis fósseis para energia elétrica (ou hidrogênio produzido por eletricidade sem produção de carbono) ou, em alguns casos (como na aviação) para biocombustíveis avançados.

A parte difícil é a aplicação prática em larga escala de conceitos gerais de tal forma que não perturbe nossa economia mundial dependente de energia e não custe uma fortuna para ser implementada. Mas ao computarmos esses custos precisamos ter em mente que uma mudança climática descontrolada imporia os custos mais elevados.

Para termos êxito, necessitaremos várias décadas para converter centrais elétricas, infraestrutura e parque imobiliário para tecnologias de baixo carbono, e precisaremos modernizar as próprias tecnologias de baixo carbono, sejam células solares fotovoltaicas ou baterias para armazenamento de energia ou processos de CCS para armazenar com segurança o CO2 ou usinas nucleares capazes de conquistar a confiança do público. O G-7, notavelmente, assumiu o compromisso de “até 2050, desenvolver e implementar tecnologias inovadoras focadas em uma transformação dos setores energéticos” e convidou “todos os países a aliarem-se a nós neste esforço”.

Esse processo mundial de descarbonização será longo e complexo e exigirá roteiros detalhados, com reformulações periódicas à medida que as tecnologias evoluam. Também nesse aspecto, o G-7 assinalou um avanço histórico, ao declarar-se disposto a “desenvolver estratégias nacionais de longo prazo com o objetivo de implementar baixas emissões de carbono” visando concretizar um futuro descarbonizado. A Rede de Desenvolvimento de Soluções Sustentáveis da ONU (SDSN, em inglês), que dirijo em nome do secretário-geral, Ban Ki-moon, vem desenvolvendo essas estratégias de baixo teor de carbono para os principais países emissores em um projeto chamado Projeto Trilhas de Descarbonização Profunda.

A declaração do G-7 é apenas uma declaração, e ainda não inclui o comprometimento de muitos dos maiores países emissores de CO2 no mundo, entre eles a China, Índia e Rússia. Mas é um passo crucial que incentivará outros países a participar da descarbonização profunda.

O resultado da reunião do G-7 inspira otimismo quanto a um acordo mundial sobre as alterações climáticas quando todos os 193 Estados membros da ONU reunirem-se em Paris em dezembro para concretizar um acordo verdadeiramente mundial sobre o clima. Os países do G-7 ainda não asseguraram um resultado exitoso na reunião de Paris, mas deram um grande passo rumo a esse objetivo. (Tradução de Sergio Blum)

Jeffrey D. Sachs é professor de Desenvolvimento Sustentável e diretor do Instituto Terra, da Columbia University. É também assessor especial do secretário-geral das Nações Unidas no tema das Metas de Desenvolvimento do Milênio.

(De Jeffrey D. Sachs para o Valor Econômico)

Fonte: ANPEI

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